domingo, dezembro 16, 2007

choro do core


Posso confessar de vez a manteiga derretida da infância em que chorava por qualquer coisa. Mas dessa vez os motivos são outros que não joelhos ralados ou simplesmente não poder brincar com os brinquedos do meu irmão. Não, agora os motivos se fazem mais profundos e às vezes sem nem explicação, simplesmente é sentido. Uma canção, um olhar sincero, um gesto amigo, qualquer coisa me comove, e talvez agora mais do que antes.
Há dois dias assisti a um filme que me dilacerou por dentro. Não pude entender a primeiro momento o porque mas meu estado era catártico e não pude esconder, nem mesmo explicar a quem o percebeu. Mas agora compreendo o que me tocou e que me deixou quase catatônica. E posso explicar.

O filme era "Batismo de Sangue", de Helvécio Ratton, e com a presença do diretor, dois atores e o frade que os ajudou nos laboratório para um bate-papo depois. Eu me assentei e assisti. Cenas descaradas de tortura, de loucura, de poder, de rendição. Não sei descrever, talvez por ter me tocado tanto eu tenha bloqueado algumas coisas que não quero lembrar?! Fato é o que me tocou foi a nossa impotência frente a certo poderes, no caso o poder militar, o poder da força, da ameaça, do terror. Estamos completamente à mercê. Impotentes. Não foi medo que me deu de acontecer comigo ou com quem eu goste, mas me deu uma revolta de que alguém possa fazer tamanhas barbaridades e que mesmo assim não tenha sido punido. Conheço pessoas, casos, que sofreram tortura na juventude e encontrou seus torutradores em supermercados com a família felizes como se não tivessem nada feito. Tamanha a friesa? O que é? O que faz de uma pessoa tratar a outra com tanto ódio, tanta violência? Será natural do ser humano? Um espécie de botão que pode ser acionado a qualquer momento e seremos tão violentos quantos? Na história da humanidade sempre houveram estes toturadores e talvez nunca sejam extintos. Seria eu mesma capaz de tal babárie em alguma situação extrema? Ontem conversei com um senhor que me contava de sua própria experiencia da ditadura e que os 'rebeldes' também praticavam a tortura igual ou tão pior que os militares. Me lembro de "Tropa de Elite", "guerra é guerra e tem de estar preparado pra tudo". Isso me deixa muito triste.
Esse poder sobre os outros é que me espinha, me faz revolta. Assim como os casos de pedofilia. Crianças sem 'maldade', sem defesa à mercê de mentes perversas que têm a confiança dos pais. Meus Deus, isso me entristece, me revolta profundamente. São professores, padres, tios, padrastos, até mesmo alguns pais. Por quê? Nem quero saber. Mas me faz chorar, mesmo que naõ me caiam lágrimas, choro por dentro. Por Tito, por Beto, pelas crianaçs traumatizadas, por Nascimento, por Matias. É triste por que parece que nunca vai acabar e sempre vamos saber de mais e mais casos que agora estão escondidos.

Mas apesar disso tudo, o outro lado me comove tanto quanto. No dia seguinte a sessão era dos "Doutores da Alegria", e apesar de ser a segunda vez que assistia ao documentário, chorei. Dessa vez, pela beleza, a leveza, pelo sorriso. Pessoas que têm os mesmos instintos violentos segundo uma parte da psicologia capazes de elevar vidas ou finais de vida num ambiente tão carregado que é um hospital. Minha profunda admiração consolidou com a sensibilidade temporal. Meu espírito clown reavivou aqui dentro. A resposta para a indignação anterior estava ali diante meus olhos molhados. Mesmo não sendo a solução para o problema da impotencia social ou infantil, é um modo de fazer as coisas melhorarem. Um sorriso, uma bobeira, um comentário na hora certa, um nariz vermelho. O peito se encheu do ar novo e chorei recorfortada, com uma resposta à frente.

Então depois do jantar um amigo, e eterno inspirador, me deu a possibilidade de externar meu nariz vermelho novamente. Não sei o que será, mas confio nele, sei que posso, e sei que será bom. A emoção acalmou e recobri o certo ponto de controle que temos sobre ela.
Os filmes foram vistos no 2° ENA / Cinema na Praça, em Sabará-MG.
* Björk - "Joga", "Isobel", "Venus as a Boy"

3 comentários:

Amanda Bia disse...

infelizmente é assim! mesmo o ser humano mais bonzinho pode se tornar um carrasco dependendo da situação. li na revista Piaui uma reportagem sobre uma experiência feita por um professor em uma faculdade nos EUA. ele criou no porão da faculdade um ambiente de carceragem, escolheu alguns alunos que seriam os presos e outro que seriam os carcereiros. a experiência não pôde ser concluída pois antes da data prevista para o término os "alunos carcereiros" estavam torturando os outros de modo assustador. todos nós infelizmente temos uma sementinha do mal, só podemos rezar para que nunca passemos por nenhuma situação que a faça germinar. a sensação de impotência realmete é muito forte, mas temos que tentar fazer a nossa parte por menor que seja, sempre que possível! te entendo muito bem e me emocionei muito com esse post!
cuide-se!
beijos!

Carlos Howes disse...

Dicas Anotadas.

Acho que minha reação ao ver Batismo de Sangue seria parecida com a sua. Eu geralmente tendo a me sentir sempre "sacudido", incomodado, traumatizado quando vejo cenas de tortura, de barbarie, de maldades com seres humanos a troco de nada, de forma injusta, cruel e sanguinária. È o tipo de coisa que nos faz questionar o conceito de "racional" que é aplicado a nós às vezes. Dói ver um semelhante neste estado. Dói sim.

Mustafa Şenalp disse...

Happy new year
very nice a blog :)