quarta-feira, março 26, 2008

Irene e sua risada


"Eu quero ir, minha gente
eu não sou daqui
eu não tenho nada
quero ver Irene rir
quero ver Irene dar sua risada!"


Queria, quem sabe, conhecer Irene. Rir igualmente de sua risada. Risada gostosa que parece ser...

Balanço ao coco do balanço. Balanço a cabeça pra lá e pra cá, mas Irene... será que riu? Será que Irene é daqui ou de lá, de onde vem aquele? De onde é Irene? De onde vem, ou está? E como se ouve a sua risada? Assim, de perto, ao pé do ouvido? Em meio à algazarra da festança? De longe, na vizinhança? Assim, sozinhos na cozinha de madrugada enquanto se assalta a geladeira? Não sei. Não sei. Afinal, como foi parar aí e querer do fundo do coração ouvir a risada tal? Por quê?

Eu gostaria de conseguir ler em veículos em movimento. Sem tonteiras, sem vistas doloridas. Sem visão turva, embassada. Eu iria ler periódicos, romances e dramas. Histórias incríveis. Sim. Leria tudo que a cá minhas vontades me exigissem. Mas, infelizmente minha constituição física, meus aparatos físicos, não me possibilitam tal ação. Quanto tempo perdido. Imagine, passo em média, 3 horas por dia, ou mais, dentro de transportes públicos. Na maioria das viagens vou assentada. Ali, assentadinha esperando o tempo passar. Arrebatada pela monotoniedade, ou pelo cansaço que consome a atenção e a resistência do corpo. Os olhos cansados de ler e reler o jornalzinho do ônibus, uma folha A3 muito colorida e cheia de chamadas que fica colada no pseudo-vidro que separa as alas do coletivo, perto do trocador. Os ouvidos cansados à constante inserção de fones. A atenção sonora cansada pelo dia cheio e pelos barulhos de cidade grande e transito. Ah!

Eu também gostaria que não precisássemos de dinheiro pra viver. Que comêssemos aquilo que nos caísse à frente. Frutas, ervas, folhas... Índios. Acho que gostaria de ser índia. Preocupada em procriar, em tarefas para a comunidade, em rituais, nas guerras entre tribos, que poderiam até ser evitadas, dependendo da tribo. Eu iria ter o corpo todo malhado. Sem me preocupar em estar gorda, flácida, ou ter o cabelos despenteados. Não teria preocupações em raspar as pernas ou as axilas. Sem guarda-roupas, sem shoppings, sem grandes eventos de gala que exigem performances requintadas. Ainda poderia tocar alguns instrumentos, e quem sabe encenar algumas passagens ritualísticas? (...) Será que a vida era melhor? Fico pensando. Sem mercado, sem grandes nações, sem transito, sem telefone, sem absorvente! É... não sei. Sem preservativos... Sem café nem pão de queijo. Sem cinema, sem sorvete, sem chocolate. E se esse instinto de competição é realmente algo à priori do ser humano, teríamos outras competições, talvez até mais cruéis e viris. É... não sei.

Ainda quero ir e vir por aí. Muito. Pelos cantos todos que for possível passar. Pelos becos do mundo, suas periferias, seus hiper-centros. Sabe lá onde é mais interessante. Inda vou. Sozinha, ou não. De turbante e biquini, visitarei a Groelândia. Trarei um cachecol para você de lá. Esquiarei nas montanhas de areia com lenços indianos e saia havaiana. Nadarei no mar morto de gorro esquimó. Vou correr atrás do trio elétrico em Paris.

Irei e voltarei. Esperarás por mim? Irene também? Quero conhecê-la. Ouvi-la. Vê-la. Enquanto isso... estou a cá.

cd player: Caetano Veloso - 1969

3 comentários:

Amanda Bia disse...

e Irene ainda ri? será que ri ou que já perdeu o encanto?
e como seria bom essa liberdade de ser índia. como seria mais simples as coisas, talvez sem grandes crises, sem questionamentos, só uma fé inabalável naquilo que se aprende desde criança e a vida já traçada desde sempre....
queria sumir assim, um pouco também...
beijos!

Carlos Howes disse...

O primeiro passo para se conseguir algo é querer. Por mais longínquo, utópico, fora de época ou estranho que pareça.

E ah, eu gostaria de poder ter tempo e dinheiro para deslocar livremente pelo mundo, sem perder tanto com as obrigações rotineiras a cumprir.

=*

Jaya disse...

Menina, adorei demais isso aí! Rs.

E vem cá, Irene não é o nome de uma das irmãs de Caetano? Não lembro agora. Senti saudades da Tropicália no meu som. Vou dar um jeito nisso! Rs.

Eeeei, eu já te disse pra ler "Tropicália", de Carlos Calado? Lê lá! :)

Cheeeiro.